sábado, 26 de fevereiro de 2011

Abra suas asas - Parte II

E aí está, na verdade, a chave da questão. Como diz o psicoterapeuta italiano Piero Ferrucci, autor do livro A Arte da Gentileza, estimular qualidades humanas como afeto, gentileza e compaixão faz bem. Pessoas gentis são mais saudáveis, mais amadas e produtivas. Vivem mais e são mais felizes, enfim.


Quem adota,portanto,pode se sentir assim, o que não deixa de gerar certas dúvidas, que são colocadas pelo próprio Ferrucci. O italiano faz uma ponderação interessante sobre o assunto, que depois ele mesmo responde: Suponhamos que sejamos gentis para nos sentirmos melhor e vivermos mais. Não estamos, então, distorcendo a própria natureza da gentileza, fazendo algo de forma calculada e em interesse próprio? A resposta:Não importa.A gentileza dá sentido e valor à vida, elevanos acima de nossas dificuldades e lutas e nos transmite inefável bem-estar.

A adoção tem como base um desejo primordial do ser humano, que é amar e ser amado. Como diz Ferrucci, só podemos estar bem se formos capazes de cuidar uns dos outros, de amar uns aos outros.

Num tom mais forte e radical, no livro Quando Nietzsche Chorou, o psiquiatra Irvin D. Yalom também toca no assunto, dando voz, em determinados momentos, à tese de que o ato de amar é movido por um lampejo egocêntrico. Jamais alguém faz algo totalmente para os outros, todas as ações são autodirigidas, todo serviço é autoserviço, todo amor é amor-próprio. Exagero? Talvez, mas grupos como o Cecif levam isso em consideração e cuidam para que essa busca incessante pelo preenchimento de um vazio interior não atrapalhe o processo.

Foco na criança

Quem adota deve levar em conta não só suas próprias aspirações, mas também as da criança que é adotada. Quem alerta para o risco de o pai ou a mãe de uma criança adotiva pensar apenas nos seus anseios é a terapeuta de família Márcia Lopes de Camargo. A adoção não pode se transformar simplesmente em um tapa-buraco existencial. Ela também deve ser voltada para a criança, com quem assumimos a responsabilidade de cuidar e educar.Devemos criá-la em um meio seguro, para que ela cresça numa família, e não nos preocupar apenas em atender à satisfação de uma necessidade pessoal, encobrindo uma dor que deveria ser por nós mesmos trabalhada, para o nosso próprio crescimento, diz.

O norte-americano Robert Klose, professor de biologia que adotou um menino da Rússia, concorda com ela. A adoção é uma troca, uma relação construída no dia-a-dia, em que você tem que estar preparado para o melhor e para o pior. Para adotar, não basta ter o desejo, a vontade. Tem que ter muita disposição.Até porque, no caminho, os pais costumam ter muitas surpresas.Assim como quem tem filhos biológicos, não conhecemos todos os ingredientes, entramos numa região desconhecida e temos de ter disposição para enfrentar os obstáculos que certamente aparecerão. Na adoção, como na vida, toda história é única, diz o biólogo.

Com que idade?

Em geral, pais preferem filhos recém-nascidos. E é natural que seja assim. Afinal, eles querem participar de toda a vida da criança.Mas aos poucos essa exigência vem cedendo espaço, e cada vez mais crianças de 2, 4, 10, 13 anos estão ganhando pais. Para Gabriela Schreiner, isso não faz diferença no sucesso da adoção. Em um longo estudo sobre o tema, a psicóloga Lidia Natalia Weber, do Paraná, uma das maiores especialistas do Brasil no assunto, fez entrevistas com 1 000 casais que haviam adotado entre 1996 e 1999. Descobriu que 95% das adoções tardias deram certo.

O grande diferencial de uma adoção tardia é o cuidado que os pais devem ter ao lidar com o histórico anterior do filho, diz Gabriela. Ou seja, os problemas enfrentados pela criança nos primeiros anos de vida pré-adoção. Há vítimas de maus-tratos, violência, atraso escolar, dificuldade de confiar nas pessoas, baixa auto-estima, entre outros. Além de muito carinho, a ajuda de profissionais, como psicólogos, fonoaudiólogos e educadores, dependendo do caso, pode ser fundamental.

É o caso de Robert Klose, o norteamericano que foi até a Rússia adotar, para quem todo o processo, que pode ser mais demorado do que os nove meses de uma gestação, vale a pena. No livro Adopting Alyosha (Adotando Alyosha, inédito no Brasil), em que ele conta a história da adoção da criança, lembra que, quando tinha 7 anos, queria muito crescer logo para virar um adulto.Agora que chegou lá, percebeu que a espera foi válida. É que tinha a seu lado um menino de 7 anos, vindo do outro lado do mundo, a quem podia chamar de filho.

PARA SABER MAIS

LIVROS

Por uma Cultura da Adoção para a Criança Grupos, Associações e Iniciativas de Apoio à Adoção, Gabriela Schreiner, Consciência Social

A Arte da Gentileza As Pessoas Mais Gentis São Mais Felizes e Bem-sucedidas, Piero Ferrucci, Elsevier

Os Bichos Ensinam, Odir Cunha, Códex

101 Perguntas e Respostas Sobre Adoção, Cecif

Adopting Alyosha A Single Man Finds a Son in Russia, Robert Klose, University Press of Mississippi

http://vidasimples.abril.com.br/subhomes/grandestemas/grandestemas_237932.shtml?pagina=1

por João Carlos Assumpção

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Abra suas asas - Parte I

Acolher uma criança não é nenhum ato de heroismo. Adotar é um gesto humano, que exige dedicação e oferece, em troca, uma sentido para a vida!

Dar um sentido para a vida. Amar e ser amado. Deixar uma marca de sua passagem pelo mundo. Ver uma parte de si se propagar pelo tempo. Enfim, vencer a sensação de finitude. É para isso que as pessoas têm filhos, e é por isso, também, que se adota uma criança. Essa constatação pode espantar quem vê os pais adotivos como uma espécie de herói, gente caridosa que decidiu abrir as portas da própria casa para uma criança abandonada. Adoção não tem nada a ver com caridade, e pais adotivos não podem ser vistos como pessoas especiais. São pais como quaisquer outros, que cometem os mesmos erros e pecam pelas mesmas ansiedades.

É claro que, no momento da adoção, existe uma boa dose de desejo de ajudar, um sentimento de amor ao próximo. Mas altruísmo nenhum dura a vida inteira, que é o tempo de uma relação de pai e filho, afinal de contas. A adoção, é verdade, não deixa de ser um ato de solidariedade, mas, ao adotar, os pais também querem atender a uma necessidade própria, preencher um vazio interior, seja ele qual for. Se estão se dando a oportunidade de ajudar um ser humano, estão, antes de mais nada, ajudando a si próprios. Se por um lado quem adota devolve à criança o direito de ter um pai ou uma mãe, ela lhes oferece a preciosa função de educar, de dar e receber amor. Permite orientar e aprender com o desenvolvimento da criança, uma experiência que pode ser muito construtiva e exige um bocado de dedicação.

Porque, como diz Fernando Freire, psicólogo da Associação Brasileira Terra dos Homens, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco, a adoção é antes de tudo uma atitude frente à vida e seus desafios, uma atitude de quem sabe que o amor é uma das poucas coisas que, quanto mais partilhado, mais cresce.

Nem mais, nem menos

Um filho adotivo não dará aos pais nem receberá deles amor maior ou menor que um filho biológico.A mulher é predisposta a gerar e a cuidar do filho, mas, em uma gestação não planejada, por exemplo, ela também tem que decidir cuidar da criança e amála. Também é uma escolha, assim como acontece na adoção, diz Gabriela Schreiner, diretora-executiva do Cecif, centro que auxilia organizações que desenvolvem trabalhos de apoio à convivência familiar. Segundo ela, a paternidade e a maternidade podem ser indesejadas, mas não a paternagem ou a maternagem, ou seja, o exercício do papel de pai ou de mãe. Não se ama mais um filho porque ele é biológico ou adotivo. Ama-se porque o pai ou a mãe tem capacidade de amar, independentemente de o filho ter sido gerado pelo casal ou não.

Quer dizer, não é porque uma mulher teve um filho que vai amá-lo.Tem de ter disposição e capacidade para fazê-lo.Essa questão de instinto materno nunca foi comprovada cientificamente. Como em qualquer relação, o amor é construído, diz Gabriela.

O conceito de paternidade não deixa de ter um quê cultural.Não são poucas as tribos indígenas em que as crianças pertencem ao grupo, não aos pais. Em certos povos africanos, jovens são criados por tios, primos, avós, fazendo estes o papel de pais. E, se a preocupação é com o caráter antinatural da adoção, é bom saber que ela existe em outras espécies animais, como os golfinhos, conhecidos por sua inteligência e bom nível de comunicação. Entre eles, qualquer filhote é do grupo, não dos pais, e toda fêmea pode amamentá-lo.

Se você achou estranho ler, lá no primeiro parágrafo, que pais adotivos também querem ver uma parte de si se propagar pelo tempo, saiba que isso acontece, sim. Não são os genes que se propagarão, é claro, mas a cultura familiar e pessoal não é herança pouca. Cláudia Barcellos e Altair Araújo, que adotaram uma criança de 4 anos e meio na região de Cotia (SP), contam uma situação curiosa, que costuma acontecer algumas vezes, mesmo em adoções tardias. Depois de um tempo ela até começou a se parecer conosco, principalmente comigo.

Em adoções bem-sucedidas, o fenômeno não é incomum. Muitas crianças adotadas acabam adquirindo características de seus pais, como o jeito de sorrir, a maneira de falar ou até a de andar, afirma Gabriela.

continua...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ansiedade surge desde os primeiros anos de vida

O número de crianças brasileiras ansiosas aumentou 60% nos últimos dez anos, de acordo com um levantamento realizado pelo Centro de Atendimento e Pesquisa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência. No mundo todo, segundo a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, de 9% a 15% da população de 5 a 16 anos de idade sofrem desse mal. Porque essas crianças estão se tornando tão ansiosas, tão cedo? Para especialistas em Desenvolvimento Infantil, os estímulos recebidos na primeira infância (período de 0 a 3 anos de idade) ajudam a responder essa questão.
E se os estímulos são tão importantes no processo de desenvolvimento da criança, o ambiente familiar deve ser harmonioso e aberto ao diálogo. Os pais, ou responsáveis, precisam manter as crianças afastadas dos problemas, tais como brigas movidas por separações ou diferenças, questões financeiras, desequilíbrios emocionais etc. “As condições do início da vida têm um longo alcance para o comportamento do ser humano. Uma criança submetida a situações com forte carga de estresse ou ansiedade ficará marcada de alguma forma, carregará isso como parte da sua formação”, alerta a psicóloga Ely Harasawa, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Ela informa que uma recente pesquisa apontou que evidências neurociêncíficas demonstram que os primeiros anos, desde a concepção, definem a base para a vida, pois têm influência significativa no desenvolvimento do ser humano.
Por isso, os pais ou responsáveis pelo desenvolvimento das crianças precisam ficar extremamente atentos aos cuidados educacional e emocional. “A quantidade e a qualidade dos estímulos que a criança recebe do ambiente em que cresce afetam seu desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial”, diz Ely. “Estes servirão de exemplo, como referência positiva ou negativa”, conclui a psicóloga.

http://www.zeroaseis.com.br/site/documento_640_0__ansiedade--surge-desde-os-primeiros-anos-de-vida.html



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Expulso de casa e morando sozinho aos 6 anos

Quando li essa história, a principio fiquei chocado. Ouvimos tantas histórias de absurdos que acontecem em diversos lugares do mundo... mas não esperamos que algo assim aconteça em nosso mundo chamado civilizado.
Contudo se pararmos para pensar um pouco, histórias como essa tem acontecido todos os dias bem ao nosso lado.
Qual a diferença entre esse menino e as milhares de crianças que, independente de classe social são abandonadas por seus pais em escolas de tempo integral ou creches por aí? Não quero colocar mais um peso em cima do coração de pais que não tem alternativa. Pessoas honestas e emocionalmente saudáveis que simplesmente precisam trabalhar o dia todo para poder sobreviver. A esses dou a minha sincera honra... vivem num país que escraviza os pobres e são verdadeiros heróis. Eu quero sim dar uma chacoalhada em grande parte de pais que enchem sua agenda com trabalho, cursos de pós-graduação, compromissos, para simplesmente ter dinheiro para poder viajar para o exterior, ou para pagar a prestação do ridículo carro importado. Não entendem que tudo isso vai passar, e no meio dessa correnteza, passa também os melhores anos de seus filhos!
No meu entendimento, a partir do momento que você decidiu ter um filho, isso deve ser uma prioridade em sua vida. Vale a pena andar mais devagar, ganhar menos, viajar para a praia mais próxima ao invés do Nordeste, e com tudo isso ganhar algumas horas semanais para investir na vida de seus filhos. Tem retorno garantido!! Você não vai se arrepender!

Ricardo Slow Family Lebedenco

Ah Long é um garoto chinês de 6 anos que perdeu os pais para a AIDS. Ele nasceu com HIV e nem sequer sua avó de 84 anos quer viver com ele porque tem medo de pegar a doença. Ele vive na cabana dos seus pais na Província de Guangxi, China, e recebe 70 yuans mensalmente (aproximadamente 17,50 reais) do governo. Outros aldeãos, tão ignorantes quanto a avó e que também desconhecem a forma de contágio da AIDS, também têm medo da convivêncai com o menino que não recebe a ajuda de ninguém. Sua única companhia é um fiel amigo cachorro.

Apesar de que a avó não deixe o garoto viver com ela, de vez em quando ela o visita para ajudá-lo a plantar alguns legumes e fazer alguma comida. Ah Ling também foi degredado pela escola local que não deixa que o menino frequente às aulas, porque outros pais prometeram matá-lo caso frequentasse as salas de aula junto a seus filhos.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Criança não deve ficar tão preocupada

As crianças são, por natureza, ansiosas. Todo pai sabe que vai ouvir mais de 20 vezes a pergunta sobre quanto tempo falta para acabar a viagem ou chegar o dia do aniversário. Mas às vezes a ansiedade passa dos limites. É comum que uma menina de 11 anos pergunte quando vai ser uma festa. Não é comum que ela durma com um relógio e acorde durante a noite para checar quantas horas faltam. Letícia dos Santos fazia isso. Todo evento importante era precedido de grande sofrimento. “Ela chegava a ter falta de ar e uma vez desmaiou antes de uma prova”, diz a mãe, a comerciária Sirlene dos Santos.

O desmaio serviu de alerta. A mãe a levou a uma emergência, mas não constataram nenhum problema físico. O pediatra não conseguiu encontrar uma causa para o desmaio. Algum tempo depois, quando o avô de Letícia precisou amputar uma perna, em decorrência de hepatite, sua ansiedade explodiu. “Ela não podia visitá-lo, então cismava que ele tinha morrido”, diz a mãe. “A Letícia pedia para eu provar que ele estava vivo, que o pusesse para falar com ela no celular.” A mãe começou a pensar em procurar um psicólogo e acabou vendo um anúncio da Santa Casa com os sintomas da ansiedade infantil. Reconheceu a filha em cada palavra que leu: preocupação excessiva, sofrimento por antecipação, dificuldade de dormir.

O distúrbio que acomete Letícia é cada vez mais frequente no Brasil. Um levantamento feito pelo Centro de Atendimento e Pesquisa de Psiquiatria da Infância e Adolescência (Capia) da Santa Casa do Rio de Janeiro mostra que em dez anos o número de crianças com o transtorno cresceu 60%. O Capia costuma atender 40 crianças a cada semana. Há dez anos, oito delas, em média, saíam com o diagnóstico de ansiedade. Hoje, são 13. Também em São Paulo se nota um aumento de casos, diz Fernando Asbahar, coordenador do projeto de Transtornos Ansiosos da Infância e Adolescência no Hospital das Clínicas, embora ele não tenha uma contagem como a do Rio.

De acordo com a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, entre 9% e 15% da população de 5 a 16 anos sofre do distúrbio. Na falta de estudos que mostrem se esse porcentual varia de um lugar para outro, os psiquiatras brasileiros trabalham com a mesma estimativa. Há sinais de que o mundo moderno tenha agravado o problema. Um levantamento feito com 300 estudantes americanos pelo pesquisador Jean Twenge, da Universidade de Cleveland, concluiu que as crianças americanas são sete vezes mais ansiosas do que há 70 anos. Twenge pesquisou questionários do “Inventário de personalidade”, aplicado no Estado de Minnesota a todos os alunos do ensino médio desde 1938. As crianças de hoje mostram-se mais inseguras sobre seu futuro, confiam menos em si próprias e demonstram medo de não ter controle sobre fatores externos.

O transtorno é potencialmente grave. Em suas formas mais severas, a ansiedade pode afetar o raciocínio, a habilidade de tomar decisões, a percepção de seu ambiente, o aprendizado e a concentração. Além disso, vem se formando entre os médicos o consenso de que muitas desordens da vida adulta, desde dificuldades de relacionamento até a depressão, têm suas primeiras manifestações na infância – e em muitos casos poderiam ser evitadas com tratamento precoce. Esse tratamento é relativamente simples. Em poucas semanas de acompanhamento psicológico, Letícia já consegue dormir sem o relógio ao lado da cama e se mostra mais tranquila.

MENINA EXEMPLAR

Vitória não tira nota menor que 9, se dedica muito aos amigos e até rejeita presentes. São sintomas de ansiedadeA grande dificuldade, em casos como o dela, é o diagnóstico. Apesar de serem tão comuns, os distúrbios de ansiedade costumam passar despercebidos – talvez porque seus sintomas comportamentais sejam tão parecidos com virtudes. É o caso de Vitória de Anchieta Custódio, de 10 anos. Ótima aluna, ela não se conforma com notas menores que 9. Está sempre preocupada com a saúde dos avós. Quando eles adoecem, pergunta o tempo todo à mãe sobre o estado de saúde deles. Vitória não cede à tentação do consumo desenfreado e até rejeita presentes: ela se importa com a situação financeira da família. Se chove, Vitória liga para o pai para saber se está tudo bem e se ele voltará para casa em segurança. Tem poucos amigos – e se dedica extremamente a eles. Parece, enfim, uma menina exemplar. Mas suas características dão sinais de uma espécie de sofrimento.

É difícil atinar que as qualidades tão prezadas nos filhos possam indicar problemas. Tão difícil que mesmo os sintomas físicos costumam ser ignorados. Em 80% dos casos a ansiedade vem acompanhada de manifestações como náusea, vômitos, dores de barriga, úlceras, diarreia, falta de ar, fraqueza ou até queda de cabelo. Em geral, os pais procuram pediatras queixando-se do problema orgânico e a ansiedade fica mascarada.

Se o pediatra levanta a possibilidade de ser algo psicológico, muitos pais reagem mal. “Nós sofremos muita pressão dos amigos quando dissemos que a Vitória iria a um psicólogo, mas hoje ela está bem melhor”, diz a mãe, Carla Parreira.

Para tentar sanar a subnotificação do distúrbio, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) iniciou uma campanha com os pediatras, orientando-os para os sintomas mais comuns. “Percebemos que a maioria dos casos de dores abdominais persistentes e também de perda de peso tem origem psicológica. A orientação aos pediatras é que eles considerem essa possibilidade no diagnóstico”, diz Eduardo da Silva Vaz, presidente da SBP. Ele afirma que crianças “terceirizadas” são mais propensas a sofrer ansiedade por causa da separação. “Hoje as mães trabalham e muitas costumam deixar os filhos com babás. Quem tem filho tem de saber que nos primeiros anos de vida é essencial ter tempo para ele.”

Para Fabio Barbirato, coordenador do Capia, no Rio, o número de diagnósticos cresceu porque os profissionais estudam mais o transtorno e estão mais capacitados para detectá-lo. Cresceu também a quantidade de psiquiatras infantis no Brasil. Há dez anos eram 150, hoje são 600. Mas, sem a ajuda dos pediatras, a maioria dos casos de ansiedade ainda ficará sem tratamento. E crianças ansiosas dificilmente serão curadas sozinhas. Barbirato diz que o mais comum é que se tornem adultos ansiosos, que passarão a noite em claro na véspera de apresentar um projeto corriqueiro no trabalho e evitarão situações sociais nas quais se sintam desconfortáveis. De acordo com estudos internacionais, em 80% dos casos um menino ansioso vira um adulto deprimido.

É possível que o número de casos no Brasil esteja crescendo apenas como consequência de melhoras no processo de diagnóstico. Mas os médicos também apontam uma tendência social. As crianças de hoje, segundo Barbirato, estão expostas a mais pressão. “Com 5, 6 anos, eles já estão se preparando para os vestibulinhos. A nota média nas escolas subiu e existe uma cobrança maior por desempenho”, diz. A violência também provoca a ansiedade. Psicólogos relataram um aumento de consultas no período em que se noticiou o caso da menina Isabella Nardoni, jogada da janela do apartamento do pai, em São Paulo. Outro fator de estresse seria a exposição às conversas de adultos. As crianças estariam, hoje, mais expostas a discussões sobre dinheiro, brigas dos pais, conflitos no trabalho ou na sociedade. Sem maturidade para saber que estão protegidas, as crianças fantasiam perigos.

Ansiedade é como alergia. Você tem uma reação desproporcional a algo corriqueiro

Há, porém, a opinião oposta. “As crianças de hoje são protegidas demais”, diz a filósofa e escritora Tania Zagury, autora de Limites sem trauma. “Elas são pouco exigidas. Então quando chega a hora de um vestibulinho, de uma cobrança na escola, elas não sabem como lidar, não foram preparadas.” Para Tania, a ansiedade é fruto do imediatismo que tomou conta da sociedade.

Ou talvez não seja nada disso. Segundo um estudo publicado no mês passado na revista Nature, a ansiedade pode estar gravada em nosso DNA tanto quanto a cor dos olhos ou do cabelo. Embora fatores externos exerçam influência, a predisposição para a ansiedade seria hereditária. Cientistas do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, monitoraram um grupo de 1.500 macacos e constataram que os 238 mais ansiosos eram da mesma família. Um mapeamento cerebral dos animais mostrou que as duas áreas do cérebro mais ligadas a esse sentimento, a amígdala e o hipocampo, funcionavam de forma parecida no grupo, com a atividade intensa, maior do que nos mais calmos, assim que uma possível ameaça surgia.

APROVADA

Concorrendo a uma vaga na escola técnica, Graziela se achava doente. Não passou. Com o tratamento, no ano seguinte foi bem-sucedidaAs duas regiões do cérebro são responsáveis por identificar um problema e decidir uma resposta a ele. No grupo de macacos mais ansiosos, a reação era exagerada – como nos ansiosos humanos – e se mantinha mesmo depois que a ameaça cessava. “O estudo é um grande passo para mostrar que a ansiedade é muito mais biológica do que imaginamos”, disse Ned Kalin, neurologista da Universidade de Wisconsin.

Não é incomum haver irmãos ansiosos. O irmão menor de Vitória, Gabriel, fez tratamento quando tinha 7 anos. Entre os pacientes da Santa Casa, 88% têm um pai ou uma mãe ansioso. “Isso muitas vezes dificulta o tratamento porque o pai, por ser ansioso, acha o filho normal e diz que com o tempo passa”, diz Barbirato.

Um dos maiores obstáculos para identificar o transtorno é que o problema não está na existência da ansiedade, mas no grau em que ela aparece. A ansiedade faz parte da vida. Desde a tenra infância, os desafios que enfrentamos podem provocar retração, busca de apoio, aversão ao risco, até falta de confiança em si mesmo. Normalmente, esses problemas desaparecem quando a criança aprende a lidar com a situação nova ou quando a situação muda. É assim com a troca de escola, entrar na piscina ou no mar, fazer provas etc. A ansiedade é um mecanismo de proteção. Em 1996, fez sucesso um livro do então presidente da Intel, Andy Grove, defendendo a tese de que, no mundo dos negócios, só os paranoicos sobrevivem. “Em quantidade normal, a ansiedade pode fazer a pessoa crescer e se desenvolver”, diz a psicóloga Lilian Lerner de Castro, vice-presidente da Associação dos Portadores de Transtorno de Ansiedade (Aporta).

Ansiedade de menos é ruim. Relaxados, somos mais vulneráveis. Um estudo da seguradora inglesa Elephant mostrou que 65% dos acidentes de carro acontecem num raio de menos de 10 quilômetros de casa – quando nos sentimos tranquilos e baixamos a guarda. Mas ansiedade demais paralisa. “Enquanto o deprimido remói o passado, o ansioso vive preso no futuro”, diz Angela Donato Oliva, professora de pós-graduação do Programa de Psicologia Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A ansiedade é como uma forte alergia psicológica. Você tem uma reação desproporcional a algo que, para os outros, é corriqueiro.”

No caso de uma criança assim, a simples ida à casa de um coleguinha detona uma onda de preocupação e expectativa exacerbada. “Quando a gente dizia que ele iria visitar algum amigo, o Bruno ficava perguntando quando ia ser, como ia ser. Se preocupava com tudo, com a roupa que ia, quem ia levar, que horas ia voltar. Isso às vezes semanas antes”, diz a professora Fátima Aparecida Borges da Costa, mãe de Bruno, de 9 anos, que faz terapia para combater a ansiedade.

Se é assim com visitas, o que dizer de mudanças mais radicais? Gabriele Rodolfo, de 9 anos, teve de trocar de escola quando os pais se separaram. Não aceitou. Teve medo dos novos colegas e professores. Horas antes da aula ela começava a ter ânsias de vômito. Levada à força, tinha crises de choro. A mãe, Fátima Fernandes, acabou tirando-a da escola e hoje ela tem uma professora particular. Ainda assim, Gabriele só aceitou a presença da estranha depois que começou o tratamento contra a ansiedade. “Ela passou a ter medo de tudo e é muito tímida”, diz a mãe.

Crianças que são “pequenos adultos”, muito responsáveis, também podem ser ansiosas. Quando Bruno começou a demonstrar preocupações incompatíveis com sua idade, a mãe desconfiou que havia algo de errado. “A gente dava um presente e ele perguntava: mas você vai poder pagar isso? No início eu achava que ele fosse só um menino responsável, o filho-padrão que todo pai quer ter”, diz Fátima. Quando ele soube que a mãe trabalharia no Censo e ia ter de entrevistar pessoas, Bruno começou a temer que ela encontrasse algum maníaco. O garoto começou a ter descamações na pele. Os medos foram evoluindo a ponto de Bruno não conseguir mais dormir sozinho. Hoje, o garoto está sendo acompanhado por um psicólogo e já mostra sinais de melhora.

FORA DA ESCOLA

Gabriele não aceitou a mudança de colégio. A mãe acabou contratando uma professora particularOs pais têm papel fundamental no tratamento. E o ingrediente mais importante é paciência, misturada com carinho. Na maioria das vezes, a ansiedade é temporária. Pesquisas mostram que 90% das crianças entre 2 e 14 anos têm pelo menos um temor específico. Até os 2 anos, pode ser o medo de separar-se dos pais ou o susto com barulhos fortes. De 3 a 6 anos, os mais comuns são os medos de seres imaginários ou do escuro. Entre 7 e 16 anos, os temores podem ser de se machucar, ir mal na escola, desastres naturais. Como saber, então, se a ansiedade passou dos limites aceitáveis? Especialistas afirmam que os pais devem se preocupar quando a criança der sinais claros de estar sofrendo, quando o transtorno afetar sua rotina (notas baixas, vida social afetada) ou quando ela passar a apresentar sintomas físicos.

O tratamento pode envolver apenas acompanhamento psicológico e, em alguns casos, medicação (em geral, para aumentar o nível de serotonina, que provoca sensações de relaxamento). A terapia, sozinha, leva entre dois e quatro meses para mostrar resultados. Quando tratadas só com medicação, as crianças apresentam melhora em apenas 15 dias, mas o índice de recaída é alto, de 30%.

Perceber o problema e tratá-lo pode mudar a vida de quem sofre do transtorno. Em 2009, Graziela de Caro, de 16 anos, fez inscrição para concursos seletivos em escolas técnicas do Rio. Durante a preparação, seu comportamento mudou. “Ela sempre achava que estava muito doente, que alguma coisa ruim ia acontecer. Isso desestruturava toda a família”, afirma a mãe, a funcionária pública Marinele Reis, de 40 anos. Graziela acordava de madrugada com medo. Tinha dor de cabeça, tonturas, ia ao médico, que nada encontrava. Acabou não passando nas provas. No ano passado, começou a fazer tratamento. “Ela ficou mais tranquila e, agora, passou para a Fundação Oswaldo Cruz”, diz Marinele. Graziela concorria com outros 30 alunos no curso de gerência de saúde. Livre da ansiedade, conseguiu.





http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI208862-15257,00.html