sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Abra suas asas - Parte I

Acolher uma criança não é nenhum ato de heroismo. Adotar é um gesto humano, que exige dedicação e oferece, em troca, uma sentido para a vida!

Dar um sentido para a vida. Amar e ser amado. Deixar uma marca de sua passagem pelo mundo. Ver uma parte de si se propagar pelo tempo. Enfim, vencer a sensação de finitude. É para isso que as pessoas têm filhos, e é por isso, também, que se adota uma criança. Essa constatação pode espantar quem vê os pais adotivos como uma espécie de herói, gente caridosa que decidiu abrir as portas da própria casa para uma criança abandonada. Adoção não tem nada a ver com caridade, e pais adotivos não podem ser vistos como pessoas especiais. São pais como quaisquer outros, que cometem os mesmos erros e pecam pelas mesmas ansiedades.

É claro que, no momento da adoção, existe uma boa dose de desejo de ajudar, um sentimento de amor ao próximo. Mas altruísmo nenhum dura a vida inteira, que é o tempo de uma relação de pai e filho, afinal de contas. A adoção, é verdade, não deixa de ser um ato de solidariedade, mas, ao adotar, os pais também querem atender a uma necessidade própria, preencher um vazio interior, seja ele qual for. Se estão se dando a oportunidade de ajudar um ser humano, estão, antes de mais nada, ajudando a si próprios. Se por um lado quem adota devolve à criança o direito de ter um pai ou uma mãe, ela lhes oferece a preciosa função de educar, de dar e receber amor. Permite orientar e aprender com o desenvolvimento da criança, uma experiência que pode ser muito construtiva e exige um bocado de dedicação.

Porque, como diz Fernando Freire, psicólogo da Associação Brasileira Terra dos Homens, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco, a adoção é antes de tudo uma atitude frente à vida e seus desafios, uma atitude de quem sabe que o amor é uma das poucas coisas que, quanto mais partilhado, mais cresce.

Nem mais, nem menos

Um filho adotivo não dará aos pais nem receberá deles amor maior ou menor que um filho biológico.A mulher é predisposta a gerar e a cuidar do filho, mas, em uma gestação não planejada, por exemplo, ela também tem que decidir cuidar da criança e amála. Também é uma escolha, assim como acontece na adoção, diz Gabriela Schreiner, diretora-executiva do Cecif, centro que auxilia organizações que desenvolvem trabalhos de apoio à convivência familiar. Segundo ela, a paternidade e a maternidade podem ser indesejadas, mas não a paternagem ou a maternagem, ou seja, o exercício do papel de pai ou de mãe. Não se ama mais um filho porque ele é biológico ou adotivo. Ama-se porque o pai ou a mãe tem capacidade de amar, independentemente de o filho ter sido gerado pelo casal ou não.

Quer dizer, não é porque uma mulher teve um filho que vai amá-lo.Tem de ter disposição e capacidade para fazê-lo.Essa questão de instinto materno nunca foi comprovada cientificamente. Como em qualquer relação, o amor é construído, diz Gabriela.

O conceito de paternidade não deixa de ter um quê cultural.Não são poucas as tribos indígenas em que as crianças pertencem ao grupo, não aos pais. Em certos povos africanos, jovens são criados por tios, primos, avós, fazendo estes o papel de pais. E, se a preocupação é com o caráter antinatural da adoção, é bom saber que ela existe em outras espécies animais, como os golfinhos, conhecidos por sua inteligência e bom nível de comunicação. Entre eles, qualquer filhote é do grupo, não dos pais, e toda fêmea pode amamentá-lo.

Se você achou estranho ler, lá no primeiro parágrafo, que pais adotivos também querem ver uma parte de si se propagar pelo tempo, saiba que isso acontece, sim. Não são os genes que se propagarão, é claro, mas a cultura familiar e pessoal não é herança pouca. Cláudia Barcellos e Altair Araújo, que adotaram uma criança de 4 anos e meio na região de Cotia (SP), contam uma situação curiosa, que costuma acontecer algumas vezes, mesmo em adoções tardias. Depois de um tempo ela até começou a se parecer conosco, principalmente comigo.

Em adoções bem-sucedidas, o fenômeno não é incomum. Muitas crianças adotadas acabam adquirindo características de seus pais, como o jeito de sorrir, a maneira de falar ou até a de andar, afirma Gabriela.

continua...

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