sábado, 26 de fevereiro de 2011

Abra suas asas - Parte II

E aí está, na verdade, a chave da questão. Como diz o psicoterapeuta italiano Piero Ferrucci, autor do livro A Arte da Gentileza, estimular qualidades humanas como afeto, gentileza e compaixão faz bem. Pessoas gentis são mais saudáveis, mais amadas e produtivas. Vivem mais e são mais felizes, enfim.


Quem adota,portanto,pode se sentir assim, o que não deixa de gerar certas dúvidas, que são colocadas pelo próprio Ferrucci. O italiano faz uma ponderação interessante sobre o assunto, que depois ele mesmo responde: Suponhamos que sejamos gentis para nos sentirmos melhor e vivermos mais. Não estamos, então, distorcendo a própria natureza da gentileza, fazendo algo de forma calculada e em interesse próprio? A resposta:Não importa.A gentileza dá sentido e valor à vida, elevanos acima de nossas dificuldades e lutas e nos transmite inefável bem-estar.

A adoção tem como base um desejo primordial do ser humano, que é amar e ser amado. Como diz Ferrucci, só podemos estar bem se formos capazes de cuidar uns dos outros, de amar uns aos outros.

Num tom mais forte e radical, no livro Quando Nietzsche Chorou, o psiquiatra Irvin D. Yalom também toca no assunto, dando voz, em determinados momentos, à tese de que o ato de amar é movido por um lampejo egocêntrico. Jamais alguém faz algo totalmente para os outros, todas as ações são autodirigidas, todo serviço é autoserviço, todo amor é amor-próprio. Exagero? Talvez, mas grupos como o Cecif levam isso em consideração e cuidam para que essa busca incessante pelo preenchimento de um vazio interior não atrapalhe o processo.

Foco na criança

Quem adota deve levar em conta não só suas próprias aspirações, mas também as da criança que é adotada. Quem alerta para o risco de o pai ou a mãe de uma criança adotiva pensar apenas nos seus anseios é a terapeuta de família Márcia Lopes de Camargo. A adoção não pode se transformar simplesmente em um tapa-buraco existencial. Ela também deve ser voltada para a criança, com quem assumimos a responsabilidade de cuidar e educar.Devemos criá-la em um meio seguro, para que ela cresça numa família, e não nos preocupar apenas em atender à satisfação de uma necessidade pessoal, encobrindo uma dor que deveria ser por nós mesmos trabalhada, para o nosso próprio crescimento, diz.

O norte-americano Robert Klose, professor de biologia que adotou um menino da Rússia, concorda com ela. A adoção é uma troca, uma relação construída no dia-a-dia, em que você tem que estar preparado para o melhor e para o pior. Para adotar, não basta ter o desejo, a vontade. Tem que ter muita disposição.Até porque, no caminho, os pais costumam ter muitas surpresas.Assim como quem tem filhos biológicos, não conhecemos todos os ingredientes, entramos numa região desconhecida e temos de ter disposição para enfrentar os obstáculos que certamente aparecerão. Na adoção, como na vida, toda história é única, diz o biólogo.

Com que idade?

Em geral, pais preferem filhos recém-nascidos. E é natural que seja assim. Afinal, eles querem participar de toda a vida da criança.Mas aos poucos essa exigência vem cedendo espaço, e cada vez mais crianças de 2, 4, 10, 13 anos estão ganhando pais. Para Gabriela Schreiner, isso não faz diferença no sucesso da adoção. Em um longo estudo sobre o tema, a psicóloga Lidia Natalia Weber, do Paraná, uma das maiores especialistas do Brasil no assunto, fez entrevistas com 1 000 casais que haviam adotado entre 1996 e 1999. Descobriu que 95% das adoções tardias deram certo.

O grande diferencial de uma adoção tardia é o cuidado que os pais devem ter ao lidar com o histórico anterior do filho, diz Gabriela. Ou seja, os problemas enfrentados pela criança nos primeiros anos de vida pré-adoção. Há vítimas de maus-tratos, violência, atraso escolar, dificuldade de confiar nas pessoas, baixa auto-estima, entre outros. Além de muito carinho, a ajuda de profissionais, como psicólogos, fonoaudiólogos e educadores, dependendo do caso, pode ser fundamental.

É o caso de Robert Klose, o norteamericano que foi até a Rússia adotar, para quem todo o processo, que pode ser mais demorado do que os nove meses de uma gestação, vale a pena. No livro Adopting Alyosha (Adotando Alyosha, inédito no Brasil), em que ele conta a história da adoção da criança, lembra que, quando tinha 7 anos, queria muito crescer logo para virar um adulto.Agora que chegou lá, percebeu que a espera foi válida. É que tinha a seu lado um menino de 7 anos, vindo do outro lado do mundo, a quem podia chamar de filho.

PARA SABER MAIS

LIVROS

Por uma Cultura da Adoção para a Criança Grupos, Associações e Iniciativas de Apoio à Adoção, Gabriela Schreiner, Consciência Social

A Arte da Gentileza As Pessoas Mais Gentis São Mais Felizes e Bem-sucedidas, Piero Ferrucci, Elsevier

Os Bichos Ensinam, Odir Cunha, Códex

101 Perguntas e Respostas Sobre Adoção, Cecif

Adopting Alyosha A Single Man Finds a Son in Russia, Robert Klose, University Press of Mississippi

http://vidasimples.abril.com.br/subhomes/grandestemas/grandestemas_237932.shtml?pagina=1

por João Carlos Assumpção

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